Fazer ou morrer
Por: Edson Luiz André de Souza
Foto: Clléber Passus/Fronteiras do Pensamento

Luc Ferry no Fronteiras POA
Fazer ou morrer - por Edson Luiz André de Souza (24/03/2007)
Depois de ouvir a palestra do filósofo Luc Ferry no seminário Fronteiras do Pensamento, fui imediatamente ler seu último livro, Aprender a viver – filosofia para os novos tempos (Editora Objetiva, RJ, 2007). Fui movido pela curiosidade de saber um pouco mais sobre o estilo do filósofo e de como ele podia ser tão claro e direto em sua conferência tratando de temas tão complexos, tão instigantes, tão cruciais.
Sua fala no Salão de Atos da UFRGS gerou em muitos uma perturbação, bastava ouvir os comentários que se sucederam logo depois de sua conferência. Lembrei imediatamente de Marlow, personagem central da novela de Joseph Conrad intitulada Juventude. Marlow relata, logo no início do romance, o que o fez se jogar em uma vida de aventuras e percursos por muitos mares. Lembra que tudo começou quando avistou uma inscrição semiapagada no casco de um velho navio: “Fazer ou morrer!”.
Luc Ferry instigou o público exatamente neste ponto. Busca apoio em muitos pensadores da primeira filosofia, que situa nos estoicistas, para mostrar que a função da filosofia é confrontar o humano com a sua condição de finitude e, assim, poder ajudá-lo a vencer o medo de viver melhor. Segue o fio condutor de uma célebre frase de Montaigne, que diz que “filosofar é aprender a morrer”. Este percurso, que chega até a filosofia contemporânea, vai discorrer sobre tantos temas tão vivos em nossa vida cotidiana: a experiência do tempo, a nostalgia do passado, a esperança, a liberdade, o amor, a função da dúvida, a necessidade da fé, as estratégias da salvação, a função do conhecimento entre outros.
A contraposição cristalina entre duas estratégias da salvação, que o filósofo situa de um lado na religião e do outro na filosofia, parece-me justa, mas não suficiente. Justa, na medida em que destitui algumas falácias dos argumentos que sustentam as profissões de fé. Cumpre aqui a mesma função que Estamira no comovente documentário de Marcos Prado, que se esforça para mostrar a inoperância da fé em Deus em sua vida de miséria.
As escolhas, evidentemente, no campo da filosofia apostam no motor organizador da vida e na aposta libertadora da razão. A sabedoria, diz Ferry, poderia vir pelo esforço da razão em vencer o medo que a finitude despertou em nós. Aliás, é assim que define em seu livro a função essencial da filosofia: “Se a filosofia culmina numa doutrina da salvação, e se aquilo de que devemos nos salvar são os medos ligados à finitude, esses exercícios devem ser totalmente orientados para a supressão da angústia...” (Ferry, Aprender a Viver, p. 59).
Contudo, sabemos que a angústia e, junto com ela, os sintomas, como demonstrou Sigmund Freud, que aliás Ferry também inclui em seu livro, não se remove com bons argumentos, nem com boas intenções. Que pena! Lembro aqui a provocadora afirmação de Freud em seu clássico texto Inibição, Sintoma e Angústia (1926), no qual lembra que, mesmo que o caminhante cante na escuridão e recuse seu estado de angústia, nem por isso pode ver mais claramente. Freud, neste ponto, insistia sobre os limites da razão em dar conta da experiência do eu. Ao propor o conceito de inconsciente, introduz uma radical reversão nesta equação do que, às vezes, confortavelmente, nomeamos como o “si mesmo”.
O próprio Ferry evoca em muitos momentos Nietzsche, principalmente quando mostra criticamente o limite da própria teoria. Lembro o que aponta de Nietzsche no ensaio Para além do bem e do mal: “Toda filosofia dissimula uma outra filosofia, toda opinião é um esconderijo, toda palavra pode ser uma máscara” (Ferry, p. 187). Este é um ponto fundamental, pois, ao mesmo tempo em que aponta o limite de toda palavra, indica que não há outra direção senão através dela. É neste tropeço com a linguagem, neste esforço de transmissão e dissimulação que o pensamento nos engaja, que temos que encontrar alguma luz.
Luc Ferry inquieta, provoca nossos acherontes, interroga o mofo de nossas culpas, aposta na argumentação pelo detalhe de uma imagem, nos convoca à responsabilidade com o tempo que temos. A provocação de seu “aprender a viver” já seria muito se produzisse em nós um despertar, mesmo nos deixando com as mãos vazias. Quem sabe aí não levaríamos mais a sério a frase que fez despertar o jovem Marlow.