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Fronteiras, cultura e século 21

Por: Donaldo Schüler

Foto: Clléber Passus

O discurso de Mario Vargas Llosa, detentor do Prêmio Nobel de Literatura 2010 – tivemos a oportunidade de ouvi-lo na noite do dia 14 de outubro deste ano – enquadra-se no conjunto das conferências que Fronteiras do Pensamento nos ofereceu nos últimos quatro anos. O festejado intelectual desenvolveu um tema para ser refletido e discutido. Solidamente fundamentado em experiências pessoais e em livros, o ficcionista, ensaísta e político falou sobre cultura. Vargas Llosa, discorrendo elegantemente e com segurança, fez reservas a autores que circulam há anos em nossas universidades. Nosso convidado presenciou cautelosos protestos, na França, contra desgastados métodos de ensino e vive intensamente as tensões que abalam nosso continente. Costuma enfrentar corajosamente limites impostos à livre produção de idéias, venham os entraves da direita ou da esquerda.

Vamos do aplauso à reflexão. A vida tem sentido se nos negam o direito de viver, de pensar, de ser? Se digo “nós”, penso em todos: todos os lugares, todos os estratos sociais. Não nos sentimos confortáveis se regimes autoritários oprimem bilhões, se doenças dizimam populações desprotegidas, se explosões e bombardeios derramam sangue, se arsenais se aperfeiçoam, se armas produzidas em países ricos circulam em regiões pobres, se recursos naturais atraem invasores, se o avanço industrial fere dolorosamente a natureza. Produzir cultura é cultivar. Cultivamos o ambiente em que vivemos, cultivamos outros, cultivamo-nos a nós mesmos. Levar a ciência mais avançada a populações empurradas pelo progresso à periferia é medida cultural exemplar. Protagonista nessa empresa, Miguel Nicolelis é modelo aos que cuidam da saúde e aos que se dedicam às artes.

Nossas fronteiras se apresentam permeáveis. Aparelhos nos trazem a cada instante, de várias partes do mundo, imagens, vozes e textos. Ampliada a informação, amplia-se a responsabilidade. Exultamos com o resgate de mineiros no Chile, como não deplorar a morte concomitante de obreiros aqui e na Ásia? Denis Mukwege, médico congolês, fez-nos comovente pedido de ajuda para erradicar a violência culturalmente implantada em seu país. Note-se bem, ele não pede socorro aos mutilados, pede que auxiliemos a encontrar meios que extirpem a cultura da violência. O apelo nos leva a pensar sobre nós mesmos. Como combater violentos quando nós próprios somos violentos e toleramos a violência que se pratica em torno de nós? O que fazer com a maior floresta do mundo, que é nossa? Jean-Michel Cousteau a visitou, observou, analisou. Em lugar de devastá-la, convém tratá-la e ocupá-la cuidadosamente para nosso próprio benefício e para o bem de todos.

Se cultivamos outros, outros nos cultivam, adverte Terry Eagleton. Isso diz respeito à educação. Exaltar valores culturais de ontem não basta. Nada nos garante que respostas adequadas em outros tempos respondam a exigências de agora. Educamos para impor um legado opressor ou instrumentamos as novas gerações para que possam abrir responsavelmente veredas inesperadas? Nossos problemas já não são os de 1968, acentuou Daniel Cohn-Bendit. Que tarefas solicitam ação nossa? Antes de buscar soluções, importa circunscrevê-las. Este trabalho é sem fronteiras. Cultura não é produto de alguns para o consumo de outros. Se não convocarmos todos para interesses comuns, o esforço de idealistas será ineficaz.

Raymond Kurzweil nos familiarizou com espantosos feitos da inteligência artificial, Eduardo Giannetti nos falou dos avanços da neurociência e das intrincadas relações entre cérebro e mente. Sejam as determinações mecânicas, biológicas, ambientais ou sociais, elas não diminuem nossa responsabilidade de cultores cultivados.