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Luc Ferry, orador em primeira pessoa

Por: Paulo Ludmer

Foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento
Luc Ferry no Fronteiras SP 2011

Tornar-se ministro da Educação da França não é para amadores, como bem sabe o filósofo Luc Ferry, conferencista do Fronteiras do Pensamento, na Sala São Paulo, dia 28 de setembro último. O ministério é logus de dimensão política potencializada.

Neste evento, Ferry – autor de Aprender a Viver (Objetiva, 2006) – mostrou robusta capacidade de seduzir por meio de seu talento de comunicador, velozmente ajustado à platéia da circunstância.

Esperto e erudito, serviu-se da mitologia grega para qualificar o esforço do ser humano por ocupar seu lugar no cosmo, ajustando-se assim à eternidade. Homero e a Odisséia protagonizada por Ulisses, Calipso, Eris, Eros, Zeus, Athena, Hera e Afrodite, entre tantos, somam um novelo de influências que constituem o elástico pensamento de Ferry.

O passado e o futuro, na plataforma de Ferry, submetem-se a um presente valorizado à consecução de uma boa vida. Na recusa de Ulisses à paixão de Calipso, entende-se porque a mortalidade interessa mais a quem aprecia e procura seu lugar cósmico, do que a imaginária juventude vinculada à vida eterna.

São proposituras ricas para nos fazer pensar, musculando nossas crenças ou as fertilizando para uma evolução.

Não obstante, Ferry pisa em areias movediças comuns à maioria dos escritores e oradores: na condição de tribuno, ele se vitima pelo excesso de adjetivos e de advérbios no proscênio da fantástica sala São Paulo, onde um suspiro numa frisa ressoa no balcão do outro lado do edifício. O improviso o induz a balancear mal o tempo entre o preparatório e o concludente.

Athena, Helena (de Tróia), Calipso, Afrodite são descritas como se ele as venerasse num pub, enfeixadas no subsolo do seu desejo. Descrevendo-as, Ferry desnuda índices de sua sexualidade e de outros valores desnecessários à substantividade de seu pensamento importante. Ele traz o ouvinte para perto, narrador em primeira pessoa. Porém, solve o discurso.

Ao sacralizar o ser humano, em substituição à desconstrução da pátria, religião e outras velharias, Luc Ferry explica porque a Europa bombardeou a Líbia. Mas patina na suposta divinização, porque omite a Síria, o Iêmen e outros países menos urgentes ao Parlamento Europeu.

Ao justificar a proibição de símbolos religiosos – o véu, o solidéu e o crucifixona escola pública francesa, evita conflitos intramuros, varrendo o contencioso para as ruas ou alhures.

Por fim, adjetivos, advérbios, verbos auxiliares e aparatos retóricos contextuais não empanam o brilho de Ferry, humanista e democrata, capaz de escrever A Tentação do Cristianismo (Objetiva, 2009), a quatro mãos com Lucien Jerphagnon, consolidando sua ecumênica convivência com famílias filosóficas distintas.

Aprendi e reaprendi refletindo junto com o que ofereceu.