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Steven Pinker: o cérebro-computador

Por: Donaldo Schüler

Foto: Clléber Passus
Steven Pinker

 

Na noite de 23 de março de 2009, no Fronteiras do Pensamento, Steven Pinker falou sereno. Autor de livros massudos, apoiado em investigações próprias e nos resultados de numerosos grupos de pesquisa, escreve e fala com autoridade, responde sem titubear. Vou aos livros de um autor que, ao que diz o New York Times, é um dos pensadores mais influentes hoje. Steven Pinker é taxativo: “Pensamento é computação”. Informação e computação residem em dados e relações lógicas que independem do meio físico que os conduz. Quando você telefona para sua mãe – argumenta o psicólogo –, a mensagem, mesmo que fisicamente modificada (de vibrações do ar à eletricidade), permanece a mesma, mantendo-se inalterada na transmissão de sua mãe a seu pai. Ecoa em Pinker a tese estruturalista de Lévy-Strauss: a estrutura dos mitos não é alterada nem pela pior tradução.

Restrinjo-me à primeira abordagem do pensamento de Pinker, sujeita a cuidadosa revisão. As teses de Pinker merecem ser discutidas. Propô-las ao debate é nossa intenção.

Pinker sai do particular para se instalar no universal. Como me sinto rodopiando não lhe interessa, Pinker quer saber como o caleidoscópio funciona. O aparelho universal de Pinker opera com a precisão e a previsibilidade da informática. Reduzido o pensamento ao produto do cérebro-computador, movimentos do corpo em nada afetam o sistema operacional. O psicólogo canadense, radicado nos Estados Unidos, devolve-nos ao racionalismo setecentista renovado. A experiência vivida lhe é tão indiferente que falar pessoalmente com a mãe e comunicar-se com ela ao telefone é a mesma coisa. Ora, se estou longe da minha mãe, preciso vê-la de tempos em tempos, por mais desenvolvidos que sejam os aparelhos à minha disposição. Face a face, cada gesto fala. A presença pessoal me transmite sentimentos que aparelho nenhum me dá. Discursos que se tocam ao vivo penetram em segredos não verbalizados, até o silêncio fala. Mãe é assunto sério. O canadense Pinker deve ter lido o romance de Camus, L´étranger,no original. O narrador, ao receber a notícia de que a mãe tinha morrido no asilo em que estava internada, reage com frieza digna de computador. Metido em outras complicações com a mesma indiferença industrial, o estrangeiro acaba no tribunal. A acusação ataca a frieza. O advogado, alheio às pesquisas de Pinker, argumenta que a falta de sentimentos levara a mãe do acusado à morte, o que o colocava na categoria dos que atentam contra a vida dos pais. O acusador, em nome de relações humanas sadias, quer que o réu glacial seja tratado como matricida. Como se vê, frieza computacional pode levar até à pena máxima.

A partir de semelhanças de gêmeos idênticos, Pinker lança dúvidas sobre o “eu” autônomo. Transladar a psicologia para o eu universal não significa retornar a Hegel? A metafísica volta com autoridade científica, fundada em respeitadas equipes de pesquisa. Posso garantir-lhe que meu “eu” procura diferenciar-se espontaneamente dos que me são semelhantes. Se o universo é um caleidoscópio, a posição me diferencia dos outros e de mim mesmo. Como considerar o “eu” uma substância estável, se ele se constrói e reconstrói a cada instante?

Para Pinker, esta dificuldade não existe. Ele se instala decididamente na mente universal. O investigador da mente ressuscita Platão: “O crânio é nossa caverna, e as representações mentais são as sombras”. Como o inventor do mito da caverna, Pinker foge das sombras para examinar o “mentalês”, a língua universal com que Chomsky sonha. O mentalês, fundado em milhares de experiências científicas, é uma linguagem de pensamento mais rica do que qualquer língua nacional. O mentalês, já que não forma sentenças, supera até Chomsky. As sentenças numa língua falada logram brevidade por omitirem informações que o ouvinte já tem. O mentalês, linguagem pura do pensamento, excede o eixo de comunicação, não deixa nada a cargo da imaginação, o mentalês é imaginação.

Não sei como descer do imóvel mentalês de Pinker à minha realidade concreta.

Estou diante de uma página em branco. Meu pensamento se altera a cada palavra que escrevo. Dialogo com o texto. Aprovo e rejeito. O escrito foge do meu controle. À medida que as sentenças ganham corpo, meu projeto inicial (impreciso, esquemático) se modifica. Escrever é destruir e construir sem princípio nem fim. Quando escrevo não me comporto como computador. O teclado obedece – não me interessa como – a ordens minhas. Se a máquina falha, irrito-me.

O que é a mente? Capacidade de entender, responder, elaborar num código dado – a língua (langue) de Saussure. Identificar mente e língua, negar o eu individual parece-me sustentar um hegelianismo maquinizado. Em Hegel, peculiaridades surgem quando o Eu universal, vivo, se nega a si mesmo.

Na opinião de Pinker, o computador sabe, pensa, fala, tenta, pede, recusa, comunica... Meu computador é uma máquina maravilhosa, que estou longe de entender. Muitas vidas são insuficientes para penetrar em sua reserva de recursos. Mas meu computador não dá um passo sem comando meu. Não pensa, não fala, não escreve... Munido de intencionalidade, saio de mim, seleciono as informações que me interessam, arranjo os dados do meu jeito. Sem minha intencionalidade, meu computador é inerte, morto.

Pinker afirma que, diferentemente do computador que tenho à minha frente, o cérebro-computador se programa a si mesmo. Isso é espinosismo. Espinosa, contrariando o pensamento medieval, afirmou que o universo se cria a si mesmo. Nascido de um universo que se programa a si mesmo, meu cérebro é um computador, fundido a corpo que ama, odeia, esbraveja, crê, duvida, raciocina, cria, mata... Nada disso a máquina que manipulo faz. Se, para espirrar, eu devesse consultar uma equipe de pesquisa para saber o que é o espirro, eu seria um inútil, inerte como a máquina que registra servilmente o que escrevo, sem opinar nem protestar.

Um ser inteligente, afirma Pinker, precisa deduzir as implicações relevantes do que sabe. Gostaria de conhecer as implicações relevantes. O relevante de agora poderá não o ser depois. O relevante pode esconder-se no deliberadamente desprezado. Joyce falava em lixeratura por lhe faltarem critérios para distinguir relevante e lixo.

Os problemas filosóficos não têm solução? Isso nos autoriza a abandoná-los? Como o movimento das estrelas atraía Tales de Mileto mais que tudo, o pai da filosofia caiu no buraco, segundo o testemunho de Diógenes Laércio. Heidegger encarou o chão e viu os sapatos do camponês. O que aconteceu? O buraco aumentou. Heidegger percebeu o fundo sem fundo, o abismo sem nome. Não vá Pinker taxar a experiência heideggeriana de doença só dele. O mal afetou Umberto Eco, que escreveu sobre o buraco uma obra volumosa como as de Pinker e muito bem fundamentada, A estrutura ausente. O computador pode não ser fundamento. Além de todos os computadores e de todos os robôs está o vazio que afeta um psicanalista do tamanho de Lacan e um pensador antilogocêntrico como Derrida.

Dê-se ouvido à termodinâmica. Se o esfriamento do universo é real, todas as paradas são construções mentais. A transformação, para ser real, deve fundamentar e superar qualquer fixação. Caso contrário, recaímos na teoria de Zenon, que, para explicar o movimento, apresenta uma sucessão de instantes fixos. Como explicar a passagem de um momento fixo a outro? Mais razoável é entender a realidade como fluida e considerar construção mental toda fixidez. Mas se a mente, como tudo, flui, falar em mente-computador não basta.

Fulminantes são as conclusões de equipes em que Pinker confia sobre a arte. Pinker despreza a tese da inutilidade da arte por ser incompreensível para a biologia evolucionista. Para tratar da arte, Pinker a enquadra na economia e na psicologia social. O status determina o valor da arte. Prestígio tem quem gasta dinheiro com bugigangas, entre elas a arte. A curiosidade artística de Pinker esbarra no marchand, no investidor que aplica o dinheiro em objetos raros.

Como compreender que Michelângelo fuja do papa, Van Gogh, que em vida não vende um único quadro, James Joyce, cujo Ulisses era perseguido enquanto escrevia Finnegans Wake? Contava com o prestígio de seus pares? Os editores resistiram a seus contos por dez anos. Joyce não foi entendido nem por Pound.

Pinker examina cuidadosamente a música tonal. Por que não avança até a atonal? Não lhe interessa a argumentação de Schönberg? Cache, em lugar de adaptar-se ao piano, adapta o piano a si. Estraga o instrumento para executar suas produções. Pinker reduz toda a arte a um cheesecake, fundado na tese: “ensinar e deleitar”. O princípio é antiquíssimo, vem de Horácio. Não conheço ninguém que a aceite hoje além de Pinker. Arte é elaboração, é trabalho. Dá prazer? Nem sempre. Produzir o novo é muito trabalhoso. Ser artista acarreta decepções. Obriga a viver com parcos recursos.

Pinker é um escritor desafiador, abundante, complexo. Há muito mais. Por dever de brevidade, interrompemos aqui. Devemos retornar a Pinker com frequência.