Homenagem a Christopher Hitchens
Por: Equipe Fronteiras

Christopher Hitchens no Fronteiras 2007
É com pesar que informamos o falecimento de Christopher Hitchens, jornalista e escritor britânico, conferencista do Fronteiras do Pensamento 2007. O autor da obra Deus não é Grande tinha 62 anos e lutava contra um câncer de esôfago há 18 meses. Hitchens morreu na noite desta quinta-feira, em Houston, nos EUA.
A doença foi descoberta em junho de 2010 e acabou se tornando tema para muitas de suas colunas na coluna da revista norte-americana Vanity Fair: "Adoro o imaginário da luta. Por vezes desejaria que estivesse a sofrer por uma boa causa ou que arriscasse a minha vida pelo bem dos outros, em vez de ser apenas um paciente às portas da morte" (agosto/2010).
Crítico literário, foi no jornalismo que se destacou, ganhando a reputação internacional. Controverso e polêmico, Hitchens deixava clara sua aversão à imposição de ideias dos grandes veículos, ao consenso e ao clichê: “Não me tornei um jornalista por não ter outra opção para escolher. Optei por me tornar um jornalista porque eu não queria ter que confiar nos jornais para obter informação”.
Dentre as centenas de milhares de livros vendidos, o autor do best-seller Deus não é grande – título homônimo à conferência no Fronteiras do Pensamento, defendeu a razão e o humanismo iluministas, a importância da integridade moral e da visão crítica do mundo, questionando os princípios dos que se opõem ao ateísmo confesso do autor. Foi nesse ideal que se uniu a Daniel Dennett, Richard Dawkins e Sam Harris usando a alcunha de Os Quatro Cavaleiros do Ateísmo, alusão aos personagens que aparecem no capítulo seis do Livro da Revelação e que anunciam os diferentes estágios de calamidades que vão assolar o mundo antes do julgamento final.
Apoiadores do Darwinismo (evolucionismo das espécies, teoria que vai contra o creacionismo divino), os quatro pensadores aproveitaram o a celebração dos 200 anos de Darwin, comemorados em 2009, para iniciar uma profunda crítica a deus e à religião, o que se convencionou chamar filosofia neoateísta.
Abaixo, leia um excerto da conferência de CHRISTOPHER HITCHENS para o Fronteiras do Pensamento 2007, Deus não é grande:
Precisamos decidir se estamos aqui pelo resultado das leis da biologia e devemos, portanto, aprender a coexistir uns com os outros, como seres humanos, ou se estamos aqui graças a um desígnio divino, que pode ter planos pra nós, planos que nada têm a ver com nossa noção de livre-arbítrio ou de solidariedade. Para mim, essa questão tem se configurado como a mais importante. É também a mais interessante e urgente. Afinal, a discussão sobre religião é a base para todas as demais discussões.
A religião foi nossa primeira tentativa de compreender a realidade e, assim, acredito que seja nossa pior tentativa, a mais primitiva e a mais retrógrada. É nossa primeira tentativa de filosofar, de descobrir o que é a verdade, o bem, o certo, mas é a mais primitiva. É, ainda, nossa primeira tentativa de explicar as ciências naturais. E surge num momento em que sabíamos muito pouco, surge na infância, na primeira infância, assustada e atemorizada da nossa raça, da nossa espécie. É um momento quando não sabíamos que vivíamos em um planeta redondo.
A religião foi nossa tentativa de compreender algo quando éramos ignorantes e infantis. Podemos perceber isso a partir dos primeiros sacerdotes religiosos. São Tomás de Aquino que acreditava na astrologia. Santo Agostinho dizia que não seria cristão não fosse pelos milagres -é a ideia implausível de que é possível suspender a ordem natural, a própria física, vez ou outra, graças à oração ou graças à vontade humana, simplesmente em nome da fé. O conhecido profeta Maomé via demônios e gênios espalhados por todo o deserto e o seu mundo era, assim, como o mundo de seus seguidores e ainda é, assombrado por demônios, diabos e influências satânicas invisíveis. Essa é a caverna obscura da qual tentamos escapar e na qual a religião tenta nos manter.
A observação que acabei de fazer é válida e conhecida há muito tempo, porém, talvez, jamais tenha sido colocada de modo tão terminal quanto agora. Creio que se tornou mais urgente recentemente. Já se passou muito tempo desde que precisamos, por exemplo, de Bertrand Russel ou Albert Einstein para nos dizer a verdade sobre a ordem natural das coisas ou do mundo filosófico em vez de apelar para mitos ou fábulas. Mas isso deixou de ser conhecido apenas entre intelectuais ou acadêmicos hoje em dia. Tornou-se uma questão urgente no mundo conforme o conhecemos hoje.
Instinto humano, solidariedade humana, conhecimento humano inato é tudo aquilo que precisamos para descobrir como devemos tratar uns aos outros e também como não tratar. Caso contrário, para argumentar com base numa história do Novo Testamento, como o Bom Samaritano sabia a forma de tratar seus semelhantes, quando os encontrava morrendo à beira da estrada? Sabemos que o Bom Samaritano não adquiriu sua moralidade a partir da religião e sabemos disso porque Jesus nos conta uma história de alguém que já existia antes de suas pregações.
E sabemos disso por outra razão: das pessoas que passavam pelo moribundo à beira da estrada, todas eram rabinos, sacerdotes ou levitas e ninguém fez nada para ajudar a vítima, a não ser aquele homem sem nome, que simplesmente se identificou com o sofrimento alheio, pois compreendeu que isso era de conhecimento comum e que impedir ou aliviar aquele sofrimento era importante. Assim, a história, em outras palavras, nega a pessoa que está contando e nos mostra que nossa moralidade e nossa solidariedade são próprias de nós, são possuídas por nós, são parte da nossa dignidade e de nosso amor-próprio, não devendo ser dadas como se fosse um presente, uma esmola condescendente de uma autoridade ou ditadura celestial.