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Alain de Botton no programa Entrelinhas

Por: Equipe Fronteiras

Foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento
Alain de Botton no Fronteiras São Paulo 2011
Assista ao vídeo da matéria

O filósofo suíço Alain de Botton veio ao Fronteiras do Pensamento nos dias 21 (POA) e 22 (SP) de novembro para lançar a obra Religião para ateus e propor o conceito que denomina  Ateísmo 2.0. Ateu confesso, o filósofo argumenta que, mais importante do que concordarmos se deus existe ou não, é nos perguntarmos por que criamos deus e o que a religião pode nos trazer de bom. O equilíbrio entre a crença religiosa e a descrença secular, o Ateísmo 2.0, seria a grande fronteira do nosso tempo.

Em entrevista ao programa Entrelinhas, da TV Cultura, ele apresenta algumas das questões propostas na conferência. Assista ao vídeo com Alain de Botton (6min)

Em sua conferência para o Fronteiras do Pensamento, De Botton sugeriu que alguns princípios básicos da religião sejam transpostos para diversas áreas da vida atual, sendo estes:

RELIGIÃO X ACADEMIA

Centro da sociedade moderna, a educação tem dois grandes objetivos: a motivação maior das universidades, que é ensinar as aptidões necessárias para a sobrevivência bem-sucedida no capitalismo moderno; mas outro objetivo vago que nos faz crer na importância da educação, de que ela nos tornará plenamente humanos, versões mais elevadas de nós mesmos. Para Alain de Botton, a segunda ideia acabou sendo esquecida durante a modernidade. “Hoje, se alguém vai à universidade pedindo para se tornar uma pessoa melhor ou aprender a viver é visto com estranheza. Não é essa a finalidade da universidade moderna.”

A DIDÁTICA RELIGIOSA

Instituições de ensino e religiosas não diferem apenas nas mensagens, a própria didática é distinta. As religiões chamam seus seguidores de “filhos”, pois a criança precisa de orientação, de ajuda. É pra isso que o sermão existe. Ainda, a religião parte do pressuposto de que os homens esquecem seus valores quando expostos ao meio e, assim, utiliza a repetição de seus dogmas: “A religião sabe que existe uma grande diferença entre saber alguma coisa e tornar essa sabedoria poderosa e eficaz em seu cotidiano. Sabemos que devemos ser bons com os outros, mas isso não é prioritário em nosso modo de vida.”

O TEMPO

Calendários são de extrema importância nas religiões. Enquanto usamos nossas agendas para lembrarmos compromissos e reuniões de negócios, as religiões usam os dias para que reforcemos a existência de valores. São pausas no tempo para reforçar aquilo que deveríamos ser em vez de apenas fazer. Ou seja, a religião dá a ideia e estrutura o tempo de forma com que a ideia seja aplicada no tempo. O calendário existe, portanto, para marcar encontros e compromissos com as próprias ideias.

A ORATÓRIA

A religião leva em conta algo muito importante: além do que é dito, é preciso saber como dizer.  Aquilo que é dito sem força ou crença é esquecido. Assim, a religião investe muito na oratória. Enquanto as aulas estruturam sua linguagem na clareza das explicações, os sermões exploram as impressões e expressões das mensagens de forma muito mais viva e rica, transformando a mensagem em ação.

O CORPO

“Outra coisa que a religião não esquece é que não somos apenas cérebros e intelectos, somos corpo também”. Ao usar o corpo e os sentidos que ele proporciona, as mensagens são fixadas de forma mais ampla e permanente. Como exemplo, a Cerimônia do Chá, do Zen Budismo, que reúne as pessoas em espaços especiais para ritos que incluem a ingestão do chá. Ainda, o mikvá, banho de limpeza do judaísmo que ocorre às sextas-feiras: “As religiões sabem como se usa uma ação física para dar suporte a uma disposição psicológica.”

A ARTE

O interesse do mundo secular pela arte é de grande relevância. Para Alain de Botton, a abordagem da arte atual está equivocada. Valorizar a arte pela arte foi o grande erro da modernidade. Artistas e museus desacreditaram no significado da obra de arte. Já na religião, a arte existe para nos lembrar do que deveríamos amar e do que deveríamos temer e nos afastar. “Precisamos que a arte nos lembre de partes esquecidas de nós mesmos, de tal forma que a razão jamais será capaz. A obra de arte toma conta e nos faz sentir algo que tinha se tornado estéril e morto em nossa imaginação. É isso que as religiões querem – dar vida às verdades esquecidas, mortas em nós”.