Daniel Dennett e o Teatro de Descartes
Por: Equipe Fronteiras
Foto: Clléber Passus/Fronteiras do Pensamento

Daniel Dennett no Fronteiras Porto Alegre 2010
Assista ao vídeo da matéria“Para criar uma bela e perfeita máquina não é necessário saber como fazê-la” – Robert Beverley MacKenzie sobre Charles Darwin
“Para ser um belo e perfeito computador não é necessário saber o que é aritmética” – Alan Turing
Estes dois dizeres foram a base da conferência de Daniel Dennett, filósofo cognitivista norte-americano, no Fronteiras do Pensamento 2010. Ambas as conclusões mostram uma inversão do nosso raciocínio usual, em que é preciso um arquiteto para construir um prédio ou um pintor para criar uma obra de arte. Ou seja, é preciso haver profissionais que estudam uma técnica com o objetivo de construir um produto final. Para Dennett, é preciso incorporar a inversão de Darwin ou Turing ao analisar as leis da neurociência, sendo a própria consciência humana uma consequência de processos cerebrais e não a causa da existência de tais processos.
- Fronteiras no youtube: assista aos principais momentos da conferência “A mente humana: o cérebro às avessas”, de Daniel Dennett
- Fronteiras Educação – Diálogos com a Geração Z: o texto abaixo está disponível na edição 03 do projeto e pode ser lida ou baixada integralmente, em sua versão PDF
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Daniel Dennett e o Teatro de Descartes
Imagine uma imensa indústria que produz computadores com minúsculas peças e sistemas variados. Nessa indústria, há inúmeras salas com diversas máquinas que produzem os mais diferentes mecanismos. É uma estrutura bastante complexa, em que nada pode falhar. Há, ainda, o supervisor da fábrica, que tem consciência total do processo. Ele sabe o que cada máquina faz e onde cada nova peça deve ir para que tudo funcione corretamente. Esta é nossa lógica para mecanismos complexos.
Contudo, antes de começarmos a análise dos mecanismos da consciência humana, precisamos nos livrar daquele que seria a mais importante peça da indústria: o supervisor. A mente humana não é formada por minúsculas máquinas, mas pode-se dizer que nossas 100 trilhões de células funcionam da mesma maneira, pois nenhuma delas sabe, conscientemente, o que está fazendo. Mas, mesmo assim, sem a menor ideia de por que estão ali e por que devem cumprir todas suas funções, as células conseguem construir um computador que funciona: o homem.
Daniel Dennett considera este “supervisor” das máquinas o maior erro que podemos cometer ao estudarmos a mente humana. Ele chama este supervisor que tudo controla – e que não existe – de Teatro de Descartes. Para Dennet, o “eu” é uma ficção útil. Porém, o produto final do cérebro é o controle do corpo. O pensamento (cognição, resolução de problemas, imaginação...) é um produto intermediário.
A grande questão para os cientistas atuais é entender como trilhões de pecinhas que não sabem o que fazem se unem em um trabalho complexo e, de repente, formam seres conscientes que sabem causas e razões para grande parte de suas ações. Onde, quando ou como isso ocorre? Esta questão ainda não foi respondida, mas, entender que não existe um momento ou um local específico no cérebro em que essa “mágica da consciência” ocorre é um imenso passo na história da ciência da mente.