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A força conceitual da obra de Libeskind

"A maior parte dos trabalhos de Daniel Libeskind está fundamentada na idéia de entrelaçamento, cruzamento ou sobreposição de linhas, que podem ser de pensamento, de relação, de organização ou de estruturação.” A afirmação é do arquiteto Marcos Sólon Kretli da Silva, Mestre e doutor em Comunicação e Semiótica, atualmente desenvolve um projeto de pós-doutorado na Escola de Comunicação e Artes USP sobre a relação da arquitetura com as novas mídias. É autor do artigo “A arquitetura de Daniel Libeskind e suas inter-relações culturais”, Revista Científica UNIVIX, v. 2, p. 114-129, 2004.Segundo o arquiteto, apesar de ter um forte apelo formal, a arquitetura do polonês, que estará no dia 3 de novembro no Fronteiras, vai além da dimensão estética para alcançar uma posição ética e política.em 29/10/2008

"A arquitetura do edifício do Museu Judaico de Berlim surgiu a partir de duas linhas de organização. Uma delas é reta e fragmentada, representando a conturbada e acidentada trajetória da comunidade judaica em Berlim. A outra é uma linha ziguezagueante que poderia prolongar indefinidamente, se entrelaçando com a anterior"."A arquitetura do edifício do Museu Judaico de Berlim surgiu a partir de duas linhas de organização. Uma delas é reta e fragmentada, representando a conturbada e acidentada trajetória da comunidade judaica em Berlim. A outra é uma linha ziguezagueante que poderia prolongar indefinidamente, se entrelaçando com a anterior".

O que caracteriza a obra de Daniel Libeskind?
R.: A obra de Daniel Libeskind não se restringe à prática da arquitetura e do urbanismo, ela está relacionada, também, a outras experiências artísticas, no campo das artes plásticas, da literatura e da música. Esse diálogo interdisciplinar estabelecido por ele talvez seja o fator que impulsiona suas criações arquitetônicas, que são caracterizadas pela força conceitual e pela originalidade dos processos de organização espacial e de experimentação formal. Apesar de terem um forte apelo formal, suas arquiteturas vão além da dimensão estética para alcançar uma posição ética e política.

Que inter-relações culturais apresentam a sua arquitetura?
R.: Os projetos arquitetônicos de Daniel Libeskind fazem alusão e estabelecem relações entre inúmeras referências culturais, que podem ser da história da arte, da arquitetura, da cidade ou da civilização. A análise desse processo relacional é usada como fundamento do seu planejamento arquitetônico.

Que conceitos são trabalhados no Museu Judaico de Berlim?
R.: O projeto do Museu Judaico de Berlim foi denominado Entre Linhas. Um título que nos leva a refletir sobre a dimensão relativa do “entre”, sobre os campos intersticiais entre polaridades e as passagens. A linha é uma das formas mais reduzidas e diagramáticas. É o elemento de ligação entre dois pontos distantes. É a descrição de uma superfície ou de um limite. Na apresentação dessa proposta, publicada em 1996 na edição especial sobre sua trajetória profissional da revista espanhola El Croquis, ele diz que no contexto do seu processo de criação as linhas têm conotações que nos levam a pensar em outras coisas. É como uma figura de indagação, um vetor de troca e transformação. De certo modo, elas estão ligadas ao movimento do tempo e à história. É o resultado de uma acumulação. O conceito de Entre Linhas representa bem a obra desse arquiteto como um todo. A maior parte dos seus trabalhos está fundamentada na idéia de entrelaçamento, cruzamento ou sobreposição de linhas, que podem ser de pensamento, de relação, de organização ou de estruturação. Numa primeira instância, as linhas estão associadas às referências e relações culturais que servem de base para seus experimentos projetuais. Elas estão relacionadas aos dados programáticos e às primeiras conexões de idéias que surgem no nascedouro dos projetos. Daniel Libeskind (1996, p. 40-45) informa que ao iniciar o planejamento do edifício do Museu Judaico de Berlim, como um anexo do já existente Museu de Berlim, ele começou a refletir sobre todas as informações que foram apresentadas como referências da proposta. Um tempo depois, ele chegou à conclusão de que a vida e a obra de certos artistas atuavam como elemento de ligação entre a cultura judaica e a tradição alemã. A partir daí, ele começou a levantar os trajetos onde pessoas como Paul Celan, Friedrich Schleiermacher ou Mies van der Rohe viveram ou trabalharam, procurando descobrir os vestígios deixados por essas figuras ilustres. Seguindo esta orientação, ele traçou algumas linhas que configuravam uma singular constelação urbana. Elas eram as primeiras imagens referenciais do projeto. Outras referências surgiram depois. Aos poucos ele foi estabelecendo relações com elas. Nesse processo destaca-se o diálogo com as linhas que dão forma à estrela de Davi, símbolo de Israel, e a análise de toda a documentação das pessoas que foram assassinadas ou deportadas de Berlim durante a Segunda Guerra Mundial. Todos esses dados foram relevantes para o processo de criação do edifício.

Eles geraram uma rede de inter-relações culturais, uma variedade de linhas simbólicas que conduziram o planejamento de uma fase informal até uma fase formal, quando começou a ser configurada a arquitetura do edifício.O entrelaçamento, cruzamento ou sobreposição de linhas também aparece nos projetos de Daniel Libeskind como um elemento de organização espacial e composição formal. Da interseção de linhas surgem várias formas e espaços arquitetônicos. O Entre Linhas é uma idéia constante em seus projetos. Podemos encontrar linhas angulares e curvas, retorcidas e espiraladas, inteiras e fraturadas. Linhas que explodem e se desdobram em outras linhas. A arquitetura do edifício do Museu Judaico de Berlim surgiu a partir de duas linhas de organização. Uma delas é reta e fragmentada, representando a conturbada e acidentada trajetória da comunidade judaica em Berlim. A outra é uma linha ziguezagueante que poderia prolongar indefinidamente, se entrelaçando com a anterior. Segundo Daniel Libeskind (1996, p. 6-38), essas duas linhas se relacionam num diálogo explícito, mas também se separam e se mostram como elementos autônomos, revelando entre elas uma outra linha invisível que se transformou num espaço vazio que vem de baixo até o topo do edifício. Para esse arquiteto, o espaço vazio que atravessa a forma em ziguezague do edifício, uma espécie de beco sem saída, está relacionado ao holocausto. Ele é destinado àquela parte da história e da cultura judaica que foi perdida e que nunca mais poderá ser recuperada. Os outros espaços se organizam e se desenvolvem em torno desse espaço vazio. Ele divide e separa galerias de exposição destinadas a mostrar momentos distintos da história e cultura judaica. O que aconteceu antes e o que aconteceu depois do holocausto. De acordo com Andreas Huyssem (2000, p. 111-112) esse espaço vazio conceitual tem uma clara significação. É o signo de uma ausência. A ausência dos judeus de Berlim, muitos dos quais pereceram no holocausto. Como um vazio fraturado, significa história, uma história quebrada, sem continuidade. A história dos judeus na Alemanha, dos judeus alemães e também a história da Alemanha propriamente dita.

Quais seriam as particularidades do Museu Victoria & Albert de Londres?
R.: O projeto de ampliação do Museu Victoria & Albert de Londres foi apresentado ao público em 1996, provocando muitas controvérsias entre os críticos mais conservadores, que viram no projeto um insulto à tradicional cultura arquitetônica. Segundo Daniel Libeskind (1996, p. 42-45), a questão que gerou tantas discussões entre os especialistas foi a seguinte: Quais os critérios que deveriam fundamentar o planejamento de um espaço localizado em um conjunto arquitetônico e urbano de valor histórico e cultural? Enquanto a maioria dos profissionais da arquitetura faria a opção de criar um edifício com uma neutralidade formal que não gerasse conflito com o campo circundante, esse arquiteto seguiu pelo caminho oposto, optando pela busca da expressividade e da extravagância formal. De acordo com ele, a proposta de ampliação da sede histórica dessa instituição, localizada no bairro de Kensington, foi concebida como uma ousada resposta à necessidade de se atuar em um entorno histórico plenamente consolidado, revelando um forte contraste com as edificações existentes no local. A equipe do arquiteto Daniel Libeskind criou o novo edifício em anexo como uma estrutura isenta e independente. Ele possui uma identidade própria, mais arrojada e contemporânea, que se diferencia radicalmente do edifício de sua sede histórica, construído num eclético estilo renascentista. A sua relação com este é de diferenciação e de invasão. É como se o espaço do edifício antigo tivesse sido invadido por um organismo estranho que veio contaminar todo o conjunto arquitetônico histórico. A dialética entre passado, presente e futuro foi levada às últimas conseqüências. Segundo Daniel Libeskind (1996, p. 42-45), o novo edifício foi planejado para ser um marco arquitetônico de nossa época. Uma obra que pudesse inserir o tempo presente na história, através de uma imagem arquitetural que funcionasse como emblema da identidade da cidade de Londres.

O que poderia comentar sobre a obra Marco Zero? Como o 11 de Setembro está presente nela?
R.: Infelizmente eu não conheço os conceitos e as idéias norteadoras do projeto de Daniel Libeskind para a Torre da liberdade no Marco Zero, nem tampouco seus pormenores. Formalmente, eu esperava desse edifício, que carrega em si uma carga simbólica, algo mais arrojado e inovador, como pode ser visto em algumas propostas apresentadas por jovens arquitetos holandeses que não foram aprovadas nesse concurso público. Estas seriam, realmente, marcos diferenciais na paisagem e no skyline da cidade.

Quais as mudanças mais características da arquitetura contemporânea? A arquitetura de uma época revela seus traços?
R.: Os arquitetos contemporâneos mais representativos têm abdicado do desejo de alcançar uma arquitetura pura, voltada para si mesma e alheia a tudo que possa contaminá-la, para dar lugar a um processo interdisciplinar que desde o primeiro momento reconhece uma obrigação com abordagens alheias à disciplina arquitetônica, num crescente inter-relacionamento com múltiplas disciplinas, que faz surgir novos conceitos, idéias e questões. O diálogo com o campo das novas mídias e o pensamento digital, mais recentemente, tem revelado mudanças profundas nos modos de pensar e planejar a arquitetura, muitas delas ainda não assimiladas ou absorvidas. A pesquisa nesse campo é necessária e muito fértil, podendo indicar novas diretrizes para a profissão.

Com certeza, a arquitetura de uma época revela seus traços. Durante toda a história da arquitetura e da cidade a disciplina arquitetônica sempre foi capaz de refletir e de ver-se impulsionada pelo espírito do tempo. De acordo, com Peter Eisenman (1995, p. 27-28), a arquitetura sempre foi vista como um instrumento que, além de possuir a capacidade de dar forma ao zeitgeist, também tinha suas formas determinadas por ele. A arquitetura da era da informação ainda está sendo criada, mas já dá para perceber que ela reflete os pensamentos e idéias da cultura digital em diálogos intersemióticos com outras linguagens.

Haveria como falar numa “tendência” da arquitetura no Brasil?
R.: Não há como falar numa tendência da arquitetura no Brasil, nem no mundo. O nosso tempo caracteriza-se pela disseminação de múltiplas tendências que se complementam ou se contrapõem. Depois de todos os “ismos”, o que culminou no Desconstrutivismo, acho difícil surgir um novo movimento programático, aglutinador de pessoas com concordâncias nas ações e nas idéias.

 



Referências bibliográficas

LIBESKIND, Daniel. Museo Judío. In El Croquis nº. 80, 1996, p. 40-45.

________. Pliegue Espiral: ampliación del Museo Victoria & Albert de Londres. In Arquitectura Viva nº. 50, 1996, p. 42-45.

EISENMAN, Peter
. El zeitgeist y el problema de la inmanencia. In AV Monografias nº 53, 1995, p. 27-28.

 

Por Sonia Montaño

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