Home  |  Fronteiras do Pensamento 2007  |  English

Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem

Home  »  Revista  »  Notícias

RevistaNotícias

Um cineasta em trânsito: Wenders dá entrevista coletiva em 18/08/2008

Wim Wenders fala com a imprensa antes da ConferênciaWim Wenders fala com a imprensa antes da Conferência

No dia 18 de agosto, com a sala de imprensa do Sheraton Hotel lotada de repórteres e fotógrafos, brasileiros e estrangeiros, o cineasta alemão Wim Wenders concedeu entrevista coletiva. Seus filmes, o passado e o futuro do cinema, a incorporação das novas tecnologias foram alguns dos temas que nortearam as perguntas. No final da coletiva, a Diretoria do Sport Clube Internacional entregou a Wenders uma camiseta do time, sabendo que ele gosta de futebol e é torcedor de um time na Alemanha de cores vermelha e branca. Confira, a seguir, trechos da coletiva.

A impressão que fica de sua obra é que se interessa por diferentes culturas, os filmes se passam em outros países e mesmo os que são na Alemanha apresentam um choque de culturas. É essa uma estratégia sua para contar uma história?

Wim Wenders – Sou alemão e por acaso nasci poucos meses depois da Segunda Guerra em um país que foi quase apagado do mapa. Quando menino, me dei conta que alguma coisa estava errada nesse país. Desde minha mais remota infância tive curiosidade em saber como vivem as outras pessoas. Com minha primeira bicicleta fui até a Holanda, país vizinho. Depois fui para outros países. Tudo o que eu queria era viajar, e de certa forma viajar se tornou a minha profissão. Além disso, também sou cineasta e fotógrafo. Sempre me deparei com histórias que me interessavam enquanto estava viajando. Todos os meus filmes foram instigados por meu interesse em descobrir um determinado lugar. Quando menino, tinha um sentido muito aguçado, o sentido ou a sensação de estar em um lugar. Senso de localização é o que marca meus filmes. Eles estão baseados no sentido de estar em um lugar.

O que tem visto ultimamente no cinema? Novos diretores que queira destacar?

Wim Wenders – Uma coisa estranha e muito incentivadora é que o cinema mundial se move em círculos, e acontece que durante décadas não vemos cinema da Romênia e de repente eles aparecem e são interessantes. O cinema italiano ficou morto mais de 20 anos e agora estão saindo ótimos filmes italianos. Da China e Taiwan vieram ótimos filmes. Vai acontecer que em algum momento o cinema alemão estará nessa onda. Numa época, os mais interessantes que vi eram brasileiros. Lembro de ter assistido Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em transe. Foram os filmes mais interessantes que vi na minha vida.

Em seus filmes demonstrou é possível reconhecer seus “pais”. Atualmente não há uma tendência de cinema sem “pai”?

Por causa da situação histórica de meu país, não tínhamos pais artísticos e sim avós. Levou tempo até eu conhecer os meus “pais”. Assisti Fritz Lang não na Alemanha e sim em Paris, e aconteceu que acabei inventando meus próprios pais. Mas de repente você constata que se torna uma espécie de pai para uma nova geração de cinema. Por mais que tenha uma dívida de gratidão com esses mestres do cinema, estou mais interessado na nova geração. Já faz 20 anos que leciono cinema, e minhas aulas não são sobre história do cinema e sim sobre o futuro. Mesmo assim, em meu trabalho com esses jovens estudantes algumas vezes mostro filmes de grandes mestres para que os vejam como incentivo. Eu mostro para eles, temendo que os achem lentos demais, mas eles descobriram o que significa lentidão pela primeira vez e de repente todos eles queriam fazer filmes muito lentos.

Peter Greenaway, que veio ao Fronteiras no ano passado, disse que o cinema como conhecemos está morto porque o cinema não incorporou tecnologia. O que você acha?

A principal diferença entre ele e eu é que ele é pessimista e eu um eterno otimista. Não digo que ele não tenha razão, eu gostaria que não tivesse.

Você se importa com as críticas feitas a seus filmes, principalmente a partir dos anos 90?

Depois dos seis primeiros filmes, todas as resenhas diziam as mesmas coisas sobre eles: esse cineasta alemão faz filmes que tratam de medo, de alienação e dos Estados Unidos. Me dei conta durante essa aventura que não teria condições jamais de me tornar um diretor norte-americano. Aos poucos me dei conta e aceitei o fato de que sou uma alma alemã romântica. Em 1990, não lia mais resenha, nem as elogiosas, porque se você acredita acaba se achando o melhor e nada mais perigoso que isso, e se você lê as negativas acha que não vale nada. Agora minha esposa me mantém informado porque ela continua lendo e eu continuei a ser um homem bastante feliz. Como cineasta não julgo meus filmes pelo “sucesso”. Alguns de meus filmes prediletos são os que tiveram pior crítica. Estou contente de tê-los feitos. Mas é claro que é melhor se um filme é visto por um grande numero de pessoas. É uma boa experiência ver que um documentário despretensioso como Boa Vista Social Club acabou sendo assistido por milhões de pessoas.

A indústria de cinema obstaculiza os novos diretores?

Eu não leciono numa escola de cinema e sim numa escola de artes, porque muitas das escolas ou faculdades de cinema estão muito orientadas para a carreira e é uma coisa bastante desoladora saber que só um 10 % daqueles alunos e alunas vão fazer filmes. Ali na escola de artes entendemos o cinema num sentido mais amplo, temos pessoas interessadas em cinema experimental e outras formas. Entendemos o cinema da forma mais ampla possível e de vez em quando um aluno ou aluna decide se tornar cineasta. De mim aprenderam apenas a dar ouvidos à própria voz. Não sei dar uma receita de como se faz um filme, nem acredito em receitas.

De que maneiras as câmeras digitais vão mudando a forma de fazer cinema?

Toda câmera tem uma certa autoridade, representa uma intrusão. Se você tem sua cena, seu diálogo, tem que superar essa relação com a câmera. Com as pequenas não há essa distância, ninguém fica com medo de uma câmera pequena. Pode encostar no rosto das pessoas, que elas não se abalam. Você não ensaia, filma o ensaio e quando o ensaio termina está a cena pronta. É uma relação muito mais direta entre os atores e os operadores. Nesse tipo de filmagem toda a equipe está envolvida no processo. Com outro tipo de câmera se estabelece uma hierarquia. A câmera pequena permite inventar o filme de forma diferente. Não quer dizer que os filmes sejam melhores. A nova tecnologia cria uma relação diferente entre atores, diretores e câmeras.

Separador 2
Últimas Notícias
» Listar todas
separador

Imprimir esta página  |  Voltar