Com a apresentação do diretor de cinema Carlos Gerbase, o cineasta Wim Wenders subiu ao palco do Fronteiras do Pensamento no dia 18 de agosto anunciando sua abordagem do tema Cinema além das fronteiras a partir do que ele chama de “sentido de lugar”. O alemão iniciou sua fala com um “obrigado” e um “boa noite”, em um bom português. “Sou alemão e por acaso nasci poucos messes depois da Segunda Guerra em um país que foi quase apagado do mapa. O país estava destroçado, sem esperança, os alemães acumularam culpa e vergonha. Desde que me lembro, queria deixar meu pais para trás e por isso me tornei um viajante”, explicou Wenders no início de sua conversa. Além de viajante ele se define “também” como cineasta e fotógrafo. “Sempre me deparei com histórias que me interessavam enquanto estava viajando. Todos meus filmes foram instigados por meu interesse em descobrir um determinado lugar”, explicou o cineasta. Ele cruzou muitas fronteiras e acabou aceitando seu ser alemão. “Tudo o que sei, o aprendi viajando, fazendo, ouvindo, não sou um intelectual nem um filósofo”, adiantou Wenders. Ele convidou a platéia a pensar junto com ele. “Quero refletir sobre cinema e sobre fronteiras”, definiu o cineasta. Para ele, o cinema contemporâneo não parece se importar muito com fronteiras. Haveria dois tipos de cinema: o cinema internacional, exibido em cinemas das grandes capitais, e o segundo, mais frágil, que é feito no mundo inteiro mas não viaja, é preciso procurá-lo. “Vejo filmes de meu amigo Walter Salles e ele os meus, mas há que procurá-los”, exemplificou Wenders.

O cinema busca ser internacional e por isso sem fronteiras. Fronteiras se tornaram algo negativo, supressão, muros, cercas. Quando caiu o Muro de Berlim na cidade natal de Wenders, parecia um final às fronteiras do mundo inteiro. “Convido vocês a pensar em sentido contrário, as fronteiras como algo positivo. O cinema dentro das fronteiras. Esse tipo de cinema verdadeiramente transcende as fronteiras e vai além”, disse o alemão.
Com algumas histórias de sua infância, Wim Wenders explicou sua idéia de cinema dentro das fronteiras. “Eu não tinha viajado pelo mundo ainda, vivia numa pequena cidade industrial onde havia um festival de documentários, tinha 16 anos e matava aula para poder assistir. Assisti a meu primeiro filme cubano e meu primeiro filme argentino. Eu não sabia nada sobre América Central e do Sul. Um pouco mais tarde, vi dois filmes de Glauber Rocha. Ele que colocou o Brasil em meu mapa mental. Depois disso, eu queria, precisava ir para lá”, disse Wenders. Antes disso, Brasil era para o cineasta uma metáfora. Ele contou que sua ligação com o Brasil era anterior ao seu contato com o cinema. “Queria ser arquiteto como Niemayer,tinha fotos recortadas de jornais com imagens de Brasília. A idéia de que ia fazer uma cidade no meio do mato me fez formar uma imagem do Brasil como um estado de espírito meio maluco. Agora vejo que realmente é assim”, brincou Wim Wenders.
Os filmes foram as primeiras mensagens que Wenders recebeu desses territórios longínquos. Eram verdadeiramente mensagens, que faziam o diretor ainda menino querer conhecer esses territórios. Filmes que foram feitos dentro de fronteiras, movidos por histórias locais, com sotaque local e com uma cultura específica dessas fronteiras. Tinham um forte sentido de lugar. “Esse sentido de lugar me encheu da mais doce curiosidade para descobrir o mundo. Se tornou ao longo dos anos minha diretriz primordial e está ligada às fronteiras. Eu não tenho interesse por histórias que poderiam acontecer em qualquer lugar. Quando percebo isso, perco instantaneamente o interesse. Me entedia mortalmente”, explicou o cineasta.
Ele afirma que se inventou como diretor com seu quarto filme Alice nas Cidades porque teve uma descoberta: “Se eu me apegar ao sentido de lugar e à necessidade autoral, seria o diretor que sempre sonhei”.
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