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Wenders: “Apóiem os cineastas locais e a cultura Local” em 19/08/2008

Ainda na noite do dia 18 de agosto, o cineasta alemão Wim Wenders desenvolveu com diversos exemplos a sua teoria sobre cinema e fronteiras. As fronteiras delimitam um lugar, uma experiência que é contada no cinema. “Pode ser uma coisa dupla, muita gente não é viajante. Para quem fica em casa seria um sentido de pertença. Fellini e Ozu nunca saíram de seu lugar. Outros viajamos, mas nos dois casos o sentido de lugar é crucial. É uma convicção de que os lugares têm suas próprias histórias para contar. Eu acredito que você pode escutar o que o lugar tem para te dizer”, disse o cineasta.

Segundo Wenders, não somos só nós que formamos os lugares, os lugares nos formam. Lugares onde moramos, outros que visitamos por um momento, que descobrimos por acaso, que nos atraem pelo nome no mapa, lugares que nunca vamos esquecer, lugares que nos assustam, outros que nos consolam. Lugares repulsivos, outros que nos enchem de assombro, lugares em que nos perdemos e outros que nós perdemos. Os lugares nos condicionam, nos protegem, podem até nos destruir. Por mais metafóricos que pareçam, os lugares sempre são reais. “Você pode levar uma pedra, algo do lugar, mas não o lugar. Se levamos uma fotografia do lugar, estamos levando só sua pele exterior. Alguns lugares que fotografei já desapareceram, sua memória terá que se apegar às imagens que temos deles”, explicou Wenders. O cineasta acredita que os lugares têm memórias. São como dunas de areia, sempre em movimento, por isso ele os respeita. “A maioria de meus filmes começou com o desejo de explorar uma paisagem, um deserto ou uma cultura local. Quando voltei a Berlim, tentei redescobrir minha pátria, minha própria língua, mas não encontrava uma história que pudesse apreender Berlim. Vagando pelas ruas em busca da história e de personagens, a própria cidade o sugeriu para mim. Vi figuras de anjos em todas as partes, monumentos, nomes de ruas. Aceitei essa dica e saiu Asas do Desejo. Fiz esse filme sem roteiro, apenas a partir de todos os lugares que me agradam”, disse o diretor.


O céu de Lisboa
surgiu pela paisagem de som da cidade; Paris, Texas, o nome do lugar define o conflito do herói do filme. Até o fim do mundo, o filme mais ambicioso e o mais caro, rodado em quatro continentes, surgiu no seu primeiro encontro com os aborígines e o deserto australianos. Wenders lembrou que na mitologia aborígine as pessoas jamais podem possuir a terra ou o país, é a terra que os possui, são responsáveis por esse pedaço de terra e devem contar as histórias dessa terra, cada pedra, cada riacho. Todos esses elementos têm um sentido mítico, se pararem de contar as histórias eles vão desaparecer. “Essa relação com a terra, com as fronteiras, todos devemos aprender”, salientou o alemão. Segundo ele, o sentido de lugar é um de tantos sentidos humanos, mas estamos prestes a perdê-lo na era da globalização. “As pessoas vão por lugares, tiram fotografias onde se espera que tirem e quando chegam em casa mostram-nas para que acreditem. Essa é a diferença entre o turista e o viajante, o turista sempre fica em casa”, explicou Wenders.

Somente o cinema que explora as fronteiras ensina o respeito pelo diferente e pelo desconhecido. Nesse sentido Wenders é categórico: “Apóiem seus cineastas, apóiem a cultura cinematográfica local. Apóiem o pequeno. Qualquer coisa grande só vai querer ser maior”.Antes de finalizar a conferência e passar ao debate, Wenders apresentou um documentário de sua autoria realizado na ocasião dos 20 anos da organização Médicos sem Fronteiras. “Os médicos não queriam um filme sobre eles e sugeriram fazer um filme sobre suas preocupações. Eles têm uma lista de temas, de problemas esquecidos, e fizemos o filme Os invisíveis, em que vários cineastas escolhiam um tema. Eu escolhi o assunto de violência contra as mulheres em países em conflito. O que as mulheres passam em zonas de guerra é realmente horrível. Rodamos um filme de 20 minutos em Kabalo, uma cidadezinha do Congo, na África.” Após a exibição do emocionante filme com uma série de depoimentos de mulheres africanas vítimas de violência, Wenders explicou que é necessário fazer filmes sobre paz, embora esse filme abordasse a violência, a paz está como forte desejo.

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