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Diálogos sobre arte em 13/11/2008

A noite da penúltima conferência do ano foi aberta pelo professor da UFRGS e assessor acadêmico do Fronteiras Donaldo Schüler. Ele chamou ao palco o escultor estadunidense Richard Serra e a curadora internacional Lynne Cooke.

Em formato original, ambos os conferencistas sentaram frente a frente e Lynne Cooke explicou que essa é a quinta vez em que ambos sentam para um diálogo. Não é uma entrevista que repassa a história do trabalho e a carreira de Serra, Lynne lançou algumas perguntas preparadas e outras formuladas no rumo da conversa.

Os conferencistas iniciaram falando sobre os materiais usados na década de 1960 por Serra, principalmente a borracha. Ela entrou na vida do artista quando achou um homem limpando que lhe ofereceu borracha. “Estava interessado em material que eu pudesse manipular”, justifica o artista. As obras iniciais eram muito experimentais. “Sempre fiz o que queria fazer com apoio de diversas pessoas, sem ter que fazer publicidade no mercado. Fiz algo que ficou à margem do mercado de produção cultural. Não que eu não esteja envolvido com o mercado, mas a minha obra não precisou disso. Os artistas jovens vão ter que ver como resolvem esse aspecto, eles precisam processar o que fazem, trabalhar em seu próprio ritmo e não se deixar levar pela ideologia da produção”, explicou o escultor, salientando que a arte é coletiva principalmente na hora da experimentação, em que os artistas fazem as obras para seus pares, o que os torna um grupo capaz de criar uma nova linguagem. “Devem começar da estaca zero, esquecer a história da arte ou mal interpretá-la. A arte não é linear, é imprevisto. O mercado talvez esteja inibindo esse tipo de atividade, o que é problemático para os jovens. É importantíssimo cruzar idéias uns com os outros”, insistiu o artista.

Richard Serra explicou seu percurso como alguém que foi ensinado a valorizar a leitura e o estudo, o que lhe permitiu receber a melhor formação, embora não fosse de família rica. Em relação ao seu percurso e atualidade como artista, Lynne Cooke perguntou a Richard Serra como ele se mantém vivo como artista e como encontra outras disciplinas e pontos de referência que mantenham sua prática aberta.

“Muitos trabalhos são feitos de uma relação inconsciente com a literatura, com figuras empoderadoras na história da arte, com o urbanismo. Eu vivo por obstinação e curiosidade”, explicou o artista. Serra explicou que precisou de muita obstinação para fazer o seu trabalho e nunca esperava que fosse um artista conhecido. “Eu queria um estilo de vida alternativo e estudar minhas próprias experiências através da minha obra. A arte me deu a possibilidade de fazer experimentos com minha própria cabeça. Provavelmente, isso se aplique a escritores e compositores também. As pessoas fazem arte para se permitir ver a si mesmas. Sempre achei muito estranho o meu sucesso, mas é claro que gosto de que vejam minha obra e achem que ela tem uma comunicação profunda. Por isso entrei no jogo e fiquei no jogo”, explicou Serra.

Lynne Cooke questionou o artista sobre o fato de ele dizer que faz a obra para ele próprio quando na verdade ele trabalha com muita gente especializada nas suas obras. O artista relatou como achou seus primeiros colaboradores após a queda de um helicóptero, os funcionários que foram desmontá-lo sabiam lidar com esse material, forma e tamanho. “Pedi ajuda a eles para uma escultura que estava fazendo e trabalhei com essas pessoas durante 20 anos. Agora trabalho com seus filhos e sobrinhos”, explicou o escultor.

Serra salientou que, por influência da mídia, muitas das obras mais atuais são feitas para efeito, para produzir um certo espetáculo. “O efeito deve ter um afeto. Eu tenho interesse na pessoa que se encontra num espaço e tem que determinar o conteúdo por si mesma, bem diferente de ser cercada ou bombardeada por sensações. Subdividir as direções, tornar o espaço palpável, fragmentá-lo, tem a ver com estímulos. O que nos diferencia é a nossa relação com o tempo, onde você nasceu, quais seus sonhos. Quando refletimos sobre nossas lembranças, embora possam ser falsas, mostramos como organizamos nosso mundo. É por isso que o corpo que caminha no espaço é meu maior interesse. Como o espaço nos concentra, nos foca, apressa nosso movimento”, insistiu Serra. Sua interlocutora lembrou algumas obras de Serra em que, quando se olha do lado de fora, não dá para imaginar o que há no lado de dentro, e ao entrar vai pra frente, pra trás e pros lados até chegar ao cerne da obra, só que depois o andante não sabe mais para onde está se dirigindo. “São peças desestabilizadoras e desorientadoras, você perde a noção do espaço e do tempo e há um fator de ansiedade que vai aumentando porque você perde a noção de rumo. Nessas obras não dá pra conhecer o espaço, ele se torna inconhecível e você tem que ir adiante”, confirmou Serra.

No final do encontro, ambos os conferencistas dedicaram a última parte da conferência a responder perguntas do público.

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