Home  |  Fronteiras do Pensamento 2007  |  English

Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem

Home  »  Revista  »  Perfis

RevistaPerfis

Separador 2

Beatriz Sarlo

Tempo de crise: literatura e identidade argentina

Os ensaios de Beatriz Sarlo atravessam as fronteiras disciplinares: da literatura à sociologia, da filosofia ao urbanismo, passando pelas crises que abalaram seu país e a reflexão sobre o cenário cultural.

Beatriz Sarlo faz parte de uma geração da Argentina formada politicamente pelo peronismo e culturalmente por Jorge Luis Borges. Até 1976, ela, uma das mais importantes vozes na vida intelectual argentina, não pensava em se tornar crítica literária, ensaísta ou professora. Era uma militante política que resistia à ditadura militar do vizinho país. Após sobreviver ao dramático período, Beatriz voltou a ler textos de Gramsci, de Lenin, de Althusser, e teve contato com os estudos culturais e com autores que se tornaram seus companheiros inseparáveis como Walter Benjamin, Raymond Williams, Roland Barthes. De certa forma, eles a ajudaram a se constituir no que ela define como uma crítica da consciência filosófica anterior. “A crítica que eu gostaria de ser é aquela que descobre como são feitas as coisas e poder contar isso a outros”, disse Sarlo, certa vez, em entrevista.

Editora da revista Punto de Vista e do site BazarAmericano.com, Beatriz Sarlo dedica-se ao estudo da literatura, análises e história cultural, culturas urbanas e novas configurações da dimensão simbólica do social. Publicou em português Cenas da vida pós-moderna (Editora UFRJ, 1997), Paisagens imaginárias: intelectuais, arte e meios de comunicação (Editora USP, 2005), Tempo presente: notas sobre a mudança de uma cultura (José Olympio, 2005), A paixão e a exceção (Companhia das Letras, 2005) e Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva (Companhia das Letras, 2007).

Professora de Literatura por vinte anos na Universidade de Buenos Aires e com passagens por universidades americanas como Columbia e Berkeley, Beatriz Sarlo é uma das mais argutas críticas literárias da Argentina. Sarlo mostra-se capaz de uma autocrítica que vai além de nacionalismos às vezes tão presentes na imagem que freqüentemente recebemos dos argentinos. “Eu sou bastante pessimista em termos culturais e educativos. A Argentina tem que aprender a ser segundo, terceiro, quarto e quinto, coisa com que nunca tinha sonhado. A princípio, tem que aprender a ser segundo do Brasil, o que é algo que não está incorporado na cabeça dos argentinos”, disse Sarlo, em entrevista a uma revista brasileira. Segundo ela, o país hermano teria estado preso a um mito cultural, no qual perdura o reflexo convencido de que na América Latina a Argentina tinha uma liderança incontestável, mas isso acabou para sempre com a globalização. “Isso é algo que, como choque cultural, é muito forte Uma transformação cultural no sentido de situar-se de novo no mundo”, disse.

Com uma visão das identidades que foge de essencialismos e substancialismos, Beatriz Sarlo pensa que a identidade argentina se baseava em três elementos: ser completamente alfabetizado, ter o trabalho garantido e ser cidadão. Esta era inclusive a base sobre a qual os argentinos se sentiam diferentes e, injustamente ou não, superiores ao resto da América Latina. A Argentina teve ditaduras horríveis que de alguma maneira puseram em questão a identidade. “Além disso, os argentinos ainda têm que fazer um balanço por terem se transformado numa espécie de monstros nacionalistas quando a ditadura militar invadiu as Ilhas Malvinas e terem pensado que derrotaríamos a Inglaterra dirigidos por um general bêbado. Isto é uma ferida que ainda não foi processada”, denuncia a escritora. Segundo ela, o fundamental da identidade do argentino típico, que aparecia nas piadas na América Latina, era o convencido, seguro de si mesmo porque era cidadão, porque ninguém ia poder dizer para ele “você não sabe com quem está falando”; essa era uma frase que os argentinos pensavam que era possível no Brasil ou no Chile. “Na Argentina, esta frase dirigida a um pobre ou a um inferior era impossível porque havia direito de cidadania incorporado. Tinha-se uma escola que fazia com que as crianças sempre tivessem dois ou três anos a mais de escolaridade que seus pais. E o emprego estava garantido”, disse Sarlo. O estado de bem-estar quebrou e a sociedade argentina entrou na crise que acompanhamos ao longo das últimas décadas. “Então temos uma sociedade cujo único traço que conserva com muita força na cultura das camadas médias é o antiautoritarismo, que se aprendeu depois das ditaduras militares, o que não é pouco, mas também não é suficiente para a constituição de uma identidade. Daí a questão de como aprender a ser cidadão de um país secundário”, destaca. Em relação à cultura e à arte no sentido mais restrito do termo, Beatriz Sarlo mostra-se mais otimista. “A Argentina ainda tem um interessante contingente de escritores que vão surgindo a cada dez ou quinze anos. O campo cultural nesse sentido ainda mostra uma mobilidade e uma dinâmica muito fortes”, reconhece.

Especialista no estudo sobre as obras de Cortázar, Sarmiento e Borges, Beatriz Sarlo consegue decodificar escritores de diversas épocas e fazer uma leitura do presente a partir da literatura e da arte.

separador

Imprimir esta página  |  Voltar